Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA

Terça-feira, 19 de Março de 2013
A vida tem um movimento estranho...

 

 

 

Não acredito no destino. Acredito que a nossa força, o lutar contra a adversidade, a coragem, a lucidez sobre o que nos rodeia (natureza, pessoas, coisas) faz de nós o que quisermos.

 

A VIDA tem um movimento estranho…

 

Há alturas em que tudo parece nosso… esse tudo, muitas vezes tão pouco, é o suficiente para nos sentirmos grandes, sortudos, eufóricos.

Há momentos, épocas, ou dias que nada faz sentido, a nossa VIDA parece ter sido escrita por alguém.

Toma estes pontos de referência e desenrasca-te. Chamo a isto – vida de personagem. Temos de cumprir ideias que não são as nossas.

E assim caminhamos, encontramo-nos e perdemo-nos sucessivamente.

 

Quando o verdadeiro problema é a VIDA que temos e o que devemos fazer?

 

Coisas que desejaríamos que nos acontecessem, para uma melhor estabilidade, nunca estão ao nosso alcance e ficamos à deriva, impotentes.

A nossa força não é pensar assim mas sim sermos – não desistentes - É isso, é isso, de maneira nenhuma - não desistentes -. Contornar os problemas, ver alternativas, esperar momentos certos, descer, subir, aproveitar oportunidades sejam elas as mais estranhas mantendo sempre o nosso objectivo principal: mudar de Vida.

Há-de então chegar o dia, aquele dia que diremos “valeu a pena”.

 

A essência de uma caminhada mais calma e por vezes extremamente serena é aceitar a nossa Vida mas nunca parar: sonhar, projectar, construir.

 

Usar a inteligência, o esforço e a vontade. É assim que poderá acontecer o tal momento mágico sem que nos possam impedir, sem que nos detenham e por fim acontecer a mudança a todo o curso das nossas vidas.

Percebe-se então que tudo é feito pelas mãos de quem sonha, de quem deseja, de quem quer, de quem constrói.

 

Perante todas as adversidades sejam feitas pela natureza ou pelo homem há o milagre da reconstrução.

 

Depois das calamidades do DESTINO (o que podemos considerar como destino?) fica tudo para nós fazermos, para nós mostrarmos que não desistimos. É a força da nossa alma que nos impulsiona e transforma o mal em bem para nós e gerações vindouras.

 

Tudo o que nos acontece está acontecendo também a bilhões de outras pessoas. Não podemos desistir…

 

Por vezes penso que o tempo devia parar para que eu pudesse mais profundamente pensar, sentir, decidir…mas não pára nunca. Dia após dia o tempo escoa-se e, por mais rotineira que seja a nossa existência, um dia nunca será igual ao outro. Nunca.

 

Aida Nuno

 

 



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Domingo, 3 de Fevereiro de 2013
Os Outros e Eu

 

    Laura estava muito cansada e o autocarro nunca mais chegava. Olhou para o saco que trazia e pensou que tinha tido uma má ideia em transportar as compras num saco tão frágil.

    Fez um pequeno sinal com a mão e o autocarro parou um pouco mais à frente da paragem. Laura perguntou a si própria o porquê daquela falta de precisão do motorista. Entrou com uma certa dificuldade devido a estarem muitas pessoas em pé mas, olhando com mais atenção, verificou que na retaguarda havia um lugar vazio. Ao sentar-se pensou que mais uma vez tinha tido sorte em arranjar um assento no banco dos palermas. Sem outra alternativa pousou o saco no colo e procurou um pouco de conforto. Não o encontrou e fechou os olhos para se ausentar de tudo o que a rodeava.

    Lembrou-se dos dois filhos, das dificuldades que tinha tido ao longo do casamento e que ainda estavam presentes no seu dia a dia. Tudo crescia na sua casa. Eram os crianças, as contas, que não se podiam adiar, e tudo se enredava para lhe dar momentos de alegria e outros de aflição.

    Sentia que já não tinha a agilidade e a força de antigamente. Tinha engordado um pouco, sentia-se menos ágil, e a vontade de conseguir que tudo estivesse feito e na devida ordem eram só desejos. Estava a ficar mais desordenada, mais inquieta. Começava a perceber que as pequenas coisas a que dava tanta importância, quando era mais nova, tinham deixado de ter qualquer valor para si. Andava cansada da rotina, de tantos afazeres, das  dificuldades constantes. Hoje não era essencial que tudo fosse belo, que tudo tivesse uma aparência harmoniosa, sem falhas. Sentia-se mudada, menos cuidada, desinteressante.

    No seu íntimo Laura sempre tinha gostado de sentir segurança e, por isso, tinha casado com um homem bom, íntegro e tivera dois filhos, a sua Alice e o seu Ricardo. O passado para ela deixara de existir, ou seja, parecia muito longínquo, desde que conhecera aqueles que amava. Vivia com toda a sua alma a vida com a família. Nada era fácil para si: segurar o dinheiro todo o mês, os extras que apareciam, as roupas que faltavam.

    Por muito que trabalhassem os problemas nunca acabavam. Uma vida em comum com filhos para criar é bom, é reconfortante mas custava um bocado segurar as dificuldades que, por vezes, a sufocavam. Criara com o marido uma vida de verdade onde havia muito amor e persistência. Só que hoje sentia-se exausta. O calor de Agosto tornara-se insuportável para quem é obrigada a andar pela cidade de um lado para o outro.

    Os pais viviam longe, aliás, ela é que vivia longe dos pais e dos irmãos que, com certeza, preenchiam o vazio da sua ausência. Tinha-se acomodado a viver das recordações de infância e de matar as saudades quando a vida o permitia.

    Suspirou. A noite em breve chegaria e ela também, dentro de pouco tempo, regressaria a casa e descansaria um pouco enquanto o jantar se fizesse. Sorrio levemente à imagem dos filhos perguntando: O que é o jantar mãe? Mesmo cansada faria um pouco de arroz doce para a sobremesa. Os filhos adoravam e seria uma surpresa.

    Continuou a pensar no dia de amanhã que compreendia voltar de novo à lida de todos os dias.  Respirou profundamente e abriu os olhos. Fazia parte deste mundo que caminhava ao seu lado, cada um com os seus pensamentos onde alegrias e tristezas se confundiam. Uma cidade enorme para a sua dimensão de vida que, muitas vezes, a desorientava e lhe metia medo.

    O autocarro rolava devagar, como habitualmente, no meio do trânsito de fim de tarde. Laura olhou as nuvens que se estavam a tornar de um cinzento chumbo prenúncio de chuva e trovoada para a noite. De uma maneira abrupta o autocarro parou numa paragem, como se o motorista, contrafeito, não quisesse parar. Talvez não...seria cansaço de uma noite mal dormida por algum motivo grave ou estivesse só absorto com pensamentos banais que lhe desviavam a atenção e o interesse pelos outros que se apinhavam, como bonecos sem corda, à sua espera. Como o poderia saber?

  O destino? Tantos destinos silenciosos, sem expressões, sem gritos, sorrisos ou palavras. Não queria pensar muito porque a sua vida já era de si  complicada. Estava imenso calor. Abafava.

    Reparou na entrada dos passageiros e chamou-lhe a atenção um homem de óculos muito escuros pedindo o seu lugar por direito. Era cego. Trazia consigo uma bengala extensível.

    Sentiu-se a observá-lo emocionada, intranquila por o estar a fixar tão intensamente. Não conseguia desviar o olhar, com um misto de pena e de vergonha, como se a sua visão fosse qualquer coisa que roubara e que, por conseguinte, não tinha direito.

    O cego impassível sentou-se e, de repente, olhando sempre em frente, começou a conversar com o passageiro ao seu lado sobre futebol. Sorrindo e gargalhando questionava e, ao mesmo tempo, respondia sobre as vitórias do seu clube.

    Não conseguia desviar o olhar daquele jovem desconhecido, cego e sorridente. Os dedos crisparam-se no saco das compras e, por momentos, entrou na sua realidade. O saco estava-se a rasgar e ela ficou suspensa no receio de que tudo se espalhasse sem remédio pelo chão do autocarro. 

    Ninguém reparava nela nem no cego. Ninguém olhava ninguém, nenhum dos ocupantes sorria para além do cego conversando com o outro passageiro sobre futebol. Laura sentiu-se impotente perante aquela súbita piedade que a incomodava. Sentiu uma angústia dolorosa apanhar-lhe o coração, estrangular-lhe a garganta.

    Encostou o saco de plástico meio roto contra o peito tentando salvar a fruta e os legumes que trazia. Tentou concentrar-se na sua aflição, esquecer o cego e o cansaço que a tomava.

    Desceu do autocarro com as pernas trémulas, completamente derrotada pelo dia que tinha tido. Segurava com dificuldade o resto do saco com a ajuda da roda do vestido puxada para a frente com ambas as mãos.

    Foi com dificuldade que percorreu o caminho até chegar a casa. Parecia que o seu cansaço, o saco rasgado e o cego lhe tinham baralhado o sentido de orientação, o significado da sua vida e o direito de ver.

    O coração batia-lhe  acelerado  quando  entrou em casa. Não  resistiu  mais,  baixou-se e deixou rolar pelo chão tudo o  que  trazia. Sentou-se no soalho e riu. Um riso rouco, convulso, sem  alegria. Acabou o riso e o silêncio tomou conta de si. Assim  se  deixou   ficar  até que  a  noite  começou  a  descer  e  sentiu que as obrigações de mãe e mulher a chamavam. 

    Foi então que entre os tachos, a mesa posta, o arroz doce, nesses momentos tão reconfortantes, que sentiu um amor profundo por tudo que fazia, pelas pequenas coisas que podia olhar, pelo marido que em breve chegaria sorrindo para ela no meio da sua fome, pelo alarido dos filhos, pelos olhos com que podia olhar o mundo, ver os que muito amava. Como era bom olhar a cor dos seus cabelos, as mãos... a expressão tão inocente dos seus filhos!

    Esqueceu-se do seu cansaço e sentiu-se feliz por ter podido dificilmente, mas com sucesso, transportar a  fruta e os legumes até  a casa, porque via...

    A família chegou e acharam Laura muito exuberante. As crianças riam e o jantar sendo humilde parecia de festa. Como uma ave apreciando a Primavera Laura prendeu esses momentos profundamente na  memória como se tivesse medo que tudo que de bom tinha se escoasse entre os seus dedos.

   Nessa noite, o quarto, o marido e o amor tiveram para Laura outro significado. Fizeram-na esquecer o dia, o inferno da realidade, o mundo dos outros que, por breves horas, lhe tinham amargurado o coração.

 

Aida Nuno  


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Sexta-feira, 6 de Abril de 2007
Os Cristos no Mundo

 

         Este mês, em que se celebra a Páscoa, achei oportuno falar de um grande escritor italiano chamado Curzio Malaparte. Este autor escreveu dois livros muito marcantes logo após a II Guerra Mundial: A Pele e Kaputt.

         O livro “A Pele” marcou-me profundamente quando o li há  alguns anos. É escrito com ódio e paixão, com fogo e fúria, com sarcasmo e lirismo. “A Pele” é um livro que irrita e comove, ofende e inspira.

         Curzio Malaparte (seria interessante consultarem a sua biografia na Internet) descreve com admirável lucidez a que baixos níveis a condição humana se afunda quando o conflito da guerra transforma alguns homens em seres inferiores a bichos.

         É um texto de sangue que nos fascina pela sua actualidade. Da II Guerra Mundial aos dias de hoje pouco ou nada mudou. Hoje as guerras são focos constantes que se espalham pelo mundo como uma doença incurável.

         Nada nos espanta seja nos jornais, telejornais ou mesmo em conversas de café, ouvirmos falar dos jovens mortos em combate como uma notícia vulgar, sem horror.

         Os jovens ao nascer, porque a natureza humana assim o quer, foram embalados e amados pelas seus pais. Merecem esta indiferença? Este destino? E o direito à  sua própria vida? Para quando a Paz em toda a sua essência?

         Quantos e quantos jovens foram mortos por interesses políticos, petróleo, diamantes, ambição desmedida de tantos indiferentes poderosos!

         “A Pele” é um livro amargo, duro, violento mas muito actual...A realidade da guerra, da fome, de muitos viverem como animais em situações de conflito, continua nos nossos dias. Que ninguém o ignore.

         Alguns excertos deste livro que transcrevo tem muito a ver com a Páscoa que celebramos. Desejo sinceramente que os jovens que assinam tantos blogs com a alegria natural da sua juventude, ilusões, desilusões, sonhos, se debrucem sobre este tema tão marcante.

 

         Mas depois da libertação os homens tiveram de lutar para viver. É uma coisa humilhante, horrível, é uma necessidade vergonhosa lutar para viver. Só para viver. Só para salvar a própria pele. Já não é a luta contra a escravidão, a luta pela liberdade, pela dignidade humana, pela honra. É a luta contra a fome, a luta por um pedaço de pão, por um pouco de lume, por um farrapo para cobrir os filhos, por um pouco de palha para estender o corpo. Quando os homens lutam para viver, tudo, até uma panela vazia, uma ponta de cigarro, uma casca de laranja, uma côdea de pão seco apanhada no lixo, tudo tem para eles um valor enorme, decisivo. Os homens são capazes de todas as velhacarias para viver: de todas as infâmias, de todos os crimes para viver...Estão prontos a ajoelharem-se, a arrastarem-se pelo chão, a lamberem os sapatos de quem pode matar-lhe a fome...e têm um sorriso humilde, doce, um olhar cheio de uma esperança famélica, bestial, uma esperança espantosa.”

        

***

         “- A pele.

         - A pele? Qual pele?

         - A pele – respondi em voz baixa – a nossa pele, esta maldita pele. O senhor não imagina sequer do que é capaz um homem, de que heroísmos e infâmias é capaz para salvar a pele. Esta, esta pele suja, está a ver?...

         Tempo houve em que se sofria a fome, a tortura, os mais terríveis padecimentos, se matava e se morria, se sofria e fazia sofrer, para salvar a alma, para salvar a própria alma e a dos outros. Era-se capaz de qualquer grandeza e de qualquer vilania para salvar a alma. Hoje, sofre-se e faz-se sofrer, mata-se e morre-se, realizam-se feitos maravilhosos e feitos horrendos, já não para salvar a própria alma, mas para salvar a própria pele. O resto não conta. É-se herói, hoje, por bem pouca coisa! Por uma feia coisa. A pele humana é uma coisa feia. Veja. É uma coisa suja. E pensar que o mundo está cheio de heróis prontos a sacrificar a própria vida por uma coisa assim.

         -Tout de même...- disse o General

         - Não pode negar senão em confronto com todo o resto...hoje, na Europa, vende-se tudo: honra, pátria, liberdade, justiça. Há-de reconhecer que é coisa sem importância vender os próprios filhos.

         - O senhor é um homem honesto – disse o General – Não venderia os seus próprios filhos.

         - Quem sabe? – respondi em voz baixa – Não se trata de ser um homem honesto, não significa nada ser uma pessoa de bem. Não é uma questão de honestidade pessoal. É a civilização moderna, esta civilização de Deus, que obriga os homens a dar uma tal importância à própria pele. Só a pele conta agora. De seguro, de tocável, de inegável, não há senão a pele. É a única coisa que possuímos, Que é nossa. A coisa mais mortal no mundo. Só a alma, ai de nós!, é imortal... Mas que valor tem a alma hoje? Só a pele é que conta. Tudo é feito de pele humana. Até as bandeiras dos exércitos são feitas de pele humana. Já ninguém se bate pela honra, pela liberdade, pela justiça. Todos se batem pela pele, por esta suja pele.”

***

 

         “Jamais gostei tanto de uma mulher, de um irmão, de um amigo, como gostei de Febo. Era um cão igual a mim. E foi para ele que escrevi as páginas afectuosas de “Um Cão Igual a Mim”. Era um ser nobre, a mais nobre criatura que encontrei na minha vida. Pertencia àquela rara e delicada família dos galgos, vindos das terras da Ásia...

A sua pele era cor da lua, rosa e dourada, a cor da lua sobre o mar, a cor da lua sobre as escuras e brilhantes folhas dos limoeiros e das laranjeiras, sobre as escamas de peixes mortos que o mar, depois das tempestades, deixava no litoral, diante da porta da minha casa...

         Jamais se afastava de mim um passo que fosse. Seguia-me como um cão. Digo que me seguia como um cão...

Dele, muito mais que dos homens e da sua cultura, e da sua vaidade, aprendi que a moral é gratuita, que é um fim em si mesma, que não pretende nem sequer salvar o mundo (nem sequer salvar o mundo!), mas unicamente inventar sempre novos pretextos para o seu desinteresse, para o seu livre exercício. O encontro de um homem e de um cão é sempre o encontro de dois espíritos livres, de duas formas de dignidade, de duas morais gratuitas...

         Um dia saiu e não voltou mais. Esperei-o até ao fim da tarde e, caída a noite, corri pelas ruas chamando-o pelo nome...

         Levei a manhã a correr de canil em canil, e finalmente um tosqueador, numa lojeca próxima perguntou-me se eu estivera na Clínica Veterinária da Universidade, onde os ladrões de cães vendem, por pouco dinheiro, os animais destinados a experiências clínicas...

         Quando entramos, todos os cães nos olharam, fitando-nos com uma expressão implorativa e, simultaneamente, carregada de uma atroz suspeita: seguiam com o olhar cada gesto nosso e, tremendo, espiavam-nos as bocas...

         De repente vi Febo.

         Estava estendido sobre o lombo, o ventre aberto, uma sonda mergulhada no fígado. Olhava-me fixamente e tinha os olhos cheios de lágrimas. Mostrava no olhar uma maravilhosa doçura. Respirava levemente, com a boca entreaberta, sacudido por um tremor horrível. Olhava-me fixamente, e uma dor atroz roía-me por dentro. “Febo”, disse eu em voz baixa. E Febo olhou-me com uma maravilhosa doçura nos olhos. Eu vi Cristo nele, vi Cristo nele crucificado, vi Cristo que me olhava com os olhos cheios de uma doçura maravilhosa. “Febo”, disse eu em voz baixa, curvando-me para ele, acariciando-lhe a testa. Febo beijou-me a mão e não soltou um gemido.

         O médico aproximou-se, pegou-me no braço:

         - Não posso interromper a experiência – disse. – É proibido. Mas por sua causa...dou-lhe uma injecção. Não sofrerá.

         Tomei a mão do médico entre as minhas mãos e disse, com as lágrimas a descerem-me pelo rosto:

         - Jure-me que não sofrerá.

         - Ficará a dormir para sempre - assegurou o médico. - Desejaria que a minha morte fosse tão suave como a dele.

        - Fecharei os olhos. Não quero vê-lo morrer. Mas trabalhe depressa, trabalhe depressa! - respondi.

        - Um momento só - disse o médico e afastou-se sem ruído, deslizando no oleado. Foi ao fundo da sala, abriu o armário.

       Eu fiquei de pé diante de Febo; tremia horrivelmente, as lágrimas sulcavam-me o rosto. Febo olhava-me fixamente e nem o mais leve gemido lhe saía da garganta, olhava-me fixamente com uma maravilhosa doçura nos olhos. Também os outros cães, estendidos sobre o lombo, nos seus berços, me olhavam fixamente, com a mesma maravilhosa doçura nos olhos, e nem o mais leve gemido lhes saía das gargantas.

       De repente, um grito de pavor saiu-me do peito:

       - Porquê este silêncio? - gritei - Que é este silêncio?

      Era um silêncio horrivel. Um silêncio imenso, glacial, morto, um silêncio de neve.

      O médico aproximou-se com uma seringa na mão:

      - Antes de os operarmos - explicou - cortamos-lhes as cordas vocais.

***

 

         “Éramos homens vivos num mundo morto. Já não tinha vergonha de ser homem.

         Que importava que os homens fossem inocentes ou culpados? Só havia homens vivos e homens mortos sobre a terra. O resto não contava. O resto não era senão medo, desespero, arrependimento, ódio, rancor, perdão, esperança. Estávamos no cume de um vulcão extinto...

         Lá longe, até onde o meu olhar podia chegar, milhares e milhares de cadáveres cobriam a terra. Não passariam de carne morta, esses mortos, se não tivesse havido entre eles alguém que se sacrificara pelos outros, para salvar o mundo, para que todos os que, vencedores ou vencidos, tinham sobrevivido aos anos de lágrimas e de sangue, não tivessem de se envergonhar de serem homens. Entre esses cadáveres, entre esses milhares e milhares de homens mortos, estava com certeza o cadáver de um Cristo. Que seria do mundo, de todos nós, se entre tantos mortos não estivesse um Cristo?

         - Para que é preciso outro Cristo? – disse Jimmy. – Cristo já salvou o mundo, duma vez para sempre.

         - Oh, Jimmy -  porque não queres compreender que todos esses mortos seriam inúteis se não houvesse um Cristo entre eles? Por que não queres compreender que há com certeza milhares e milhares de Cristos entre todos esses mortos? Tu também sabes que não é verdade que Cristo tenha salvado o mundo duma vez por todas. Cristo morreu para nos ensinar que cada um de nós pode tornar-se Cristo, que cada homem pode salvar o mundo com o seu próprio sacrifício. Também Cristo teria morrido inutilmente se cada homem não pudesse tornar-se Cristo e salvar o mundo.

         - Um homem não é senão um homem – disse Jimmy.

         - Oh Jimmy, por que não queres compreender que não é necessário ser filho de Deus, ressuscitar dos mortos ao terceiro dia, e ter assento à mão direita de Deus Pai, para se ser Cristo? Foram esses milhares de mortos, Jimmy, que salvaram o mundo.

         - Dás demasiada importância aos mortos – observou Jimmy. – Um homem só conta se estiver vivo. Um homem morto não é senão um homem morto.

         - Entre nós, na Europa – respondi, só os mortos contam.

         - Estou cansado de viver entre os mortos – tornou Jimmy. Sinto-me contente por voltar a casa, por voltar à América, é um país rico e feliz.

         - Sei muito bem, Jimmy, que a América é um país rico e feliz. Mas não irei, devo ficar aqui. Não sou um covarde, Jimmy. E depois, também a miséria, a fome, o medo, a esperança são coisas maravilhosas. Mais que a riqueza, mais que a felicidade.

         - A Europa é um monte de lixo – disse Jimmy – um pobre país vencido. Vem connosco. A América é um país livre.

         - Não posso abandonar os meus mortos Jimmy. Vocês levam os seus mortos para a América. Todos os dias partem para a América navios carregados de mortos. Morreram ricos, felizes, livres. Mas os meus mortos não podem pagar o bilhete para a América, são pobres demais. Nunca chegarão a saber o que é a riqueza, a felicidade, a liberdade. Viveram sempre na escravidão; sofreram sempre a fome e o medo. Serão sempre escravos, sofrerão sempre a fome e o medo, mesmo mortos. É o destino que lhes coube Jimmy. – Se soubesses que Cristo jaz entre eles, entre esses pobres mortos, ias abandoná-Lo?

         - Não queres com certeza que eu acredite – ponderou Jimmy - que também Cristo perdeu a guerra.

         - É uma vergonha ganhar a guerra – disse eu em voz baixa.”

 

Excertos tirados do livro “A Pele” de Curzio Malaparte – Editora Civilização Brasileira (1962)(315 páginas)

 

Aida Nuno

 

 

 

 


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Terça-feira, 20 de Março de 2007
Parar para pensar

 

         Todos os dias devíamos parar uns momentos para recordar quem somos. Encontraríamos certamente serenidade e força para enfrentar as nossas vidas tão agitadas.

 

         Se o teu passado foi calmo e feliz mas agora está desajustado ao teu presente tempestuoso pensa e começa a agir de uma outra forma, ajuda-te a ti próprio a encontrar o melhor caminho. Se o teu passado foi triste e isso tem influenciado o  presente, pensa que tudo porque passaste foi um princípio de ensinamento para escreveres no livro da Vida. Esse percurso vacinou-te, deu-te a intuição e a coragem de prosseguir esperando um futuro mais promissor.

 

         Os desgostos são como pedras que todos os dias magoam os nossos corações. Um monte, pedra a pedra transforma-se numa montanha. Não continues a fazer mais montanhas de pedras. Pára e escala com coragem essa única montanha que tu viveste. Lá no alto verás a vida de uma outra maneira, alcançaste com certeza mais sabedoria. Não subestimes todos os problemas e desgostos porque já passaste. Eles vão ajudar-te a reconheceres outros caminhos para a tua verdadeira liberdade.

 

         Se quiseres acreditar que o tempo nos trás compensações para além da velhice, essa palavra tão depreciativa para alguns, passarás a ser mais forte, mais lúcido para enfrentares afinal o teu verdadeiro futuro com uma filosofia de vida que te espantará.

 

         Todo o tempo é tempo de recomeçar...Tira partido das coisas boas e más que te aconteceram. Parar nunca! O tempo é breve, não perdoa aos indecisos, aos que não se querem escutar. Compara a tua vida sempre com a dos mais infelizes e aprenderás a ser mais condescendente com a tua própria Vida.

 

         Desperta e medita. Tenta estar consciente do momento presente. Vai-te ajudar a unir os elos da tua história ou das tuas histórias. Recorda quem és, de onde vens, para onde vais e para onde queres verdadeiramente ir. Mesmo que não encontres respostas definitivas para muitas das grandes questões da tua vida, não desistas. Não percas as tuas interrogações para não te perderes pelo caminho.

 

         Carregamos um grande saco às costas. Estão lá dentro peças que não queremos perder. Volta a utilizá-las. Estarão lá com certeza a tua inocência perante o mundo, a tua espontaneidade perante a vida e a tua vontade de tornar a olhar, sentir e realizar. Se as guardaste é porque te são queridas.

 

         Louva a Vida, a natureza, o céu, o mar, tudo o que tens e, mesmo magoado pelas injustiças, não desistas. Estás vivo e essa Vida tem um valor incalculável. Sorri.

 

Aida Nuno 

 


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