Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA
Domingo, 17 de Janeiro de 2010
VIRGILIO FERREIRA (1916-1996)

 

 

 

 
    Virgilio Fereira nasceu em 1916 em Melo, Serra da Estrela, (Portugal) e faleceu em Lisboa em 1996. Frequentou o Seminário do Fundão (1926-1932) e licenciou-se em Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (1940). A par do trabalho de escrita, foi professor de Português e de Latim em várias escolas do país.
   Inicialmente neo-realista, depressa Virgílio Ferreira se deixou influenciar pelos existencialistas franceses (André Malraux e Jean-Paul Sartre), iniciando um caminho próprio a partir do romance Mudança (1949). É considerado um dos mais importantes romancistas portugueses do século XX, tendo ganho vários prémios.   
   O Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores (duas vezes ganho, primeiro com o romance Até ao Fim e depois com o romance Na tua Face), e o Prémio Femina em França com o romance Manhã Submersa.
 
Obras:
FICÇÃO:
O Caminho Fica Longe (1943), Onde Tudo Vai Morrendo (1944), Vagão J (1946), Mudança (1949), A Face Sangrenta (1953), Manhã Submersa (1953), Apelo da Noite (1963), Aparição (1959), Cântico Final (1960), Estrela Polar (1962), Alegria Breve (1965), Nítido Nulo (1971), Apenas Homens (1972), Rápida, a Sombra (1974), Contos (1976), Signo Sinal (1979), Para Sempre (1983), Uma Esplanada sobre o Mar (1986), Até ao Fim (1987), Em Nome da Terra (1990), Na tua Face (1993), Cartas a Sandra (1996).
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Divagações sobre o livro “Manhã Submersa” incluindo alguns excertos.
 
   Este romance é vivido nos anos 50 quando muitos rapazes pobres, para poderem sair das suas terras, onde a fome pernoitava, iam para o seminário sem qualquer vocação, sem qualquer sinal de Deus.
   A sua liberdade, a partir daí, passava a ser prensada no rigor, na disciplina mórbida dos seus educadores.
...”Sabe porque veio para aqui?
Calado, cosi-me todo contra o muro do meu pavor. Tinha os olhos sem governo, os braços pendentes, a boca cheia de sal.
- Sei, sim Sr. Reitor. Não sei, não, Sr. Reitor.
Ficámos ambos em silêncio, para avaliarmos bem a minha confusão.
- Em que ficamos? – Tornou o homem – Sabe ou não sabe?
- Eu julgo que é por causa da carta. Mas não sei ao certo.
- O menino não se sente bem no seminário?
Era uma oportunidade. Ah, eu queria era paz. Escorraçado, infeliz, esmagado de solidão – mas em paz. E atirei-me sufocado:
- Sinto sim Senhor Reitor. Sinto-me mesmo muito bem no Seminário.
- Então porque disse que se queria ir embora? Não o têm tratado bem?
- Têm sim Senhor Reitor. Têm-me tratado mesmo muito bem.”...
   Então o reitor dissertou sobre a suprema dignidade do sacerdócio, o favor da D. Estefânia que libertara António Lopes da sua raça.
...”começou a contar a minha história triste que eu ouvi atentamente, porque, afinal, com grande surpresa minha, eu não a conhecia. O meu pai morrera, a minha mãe era pobre, eu brincara na lama da minha condição – sim”.
   Impressiona neste romance a narrativa sobre o pecado do desejo, o medo do inferno e o temor a Deus.
...”De repente, porém, não sei como, ó Deus, nem nunca o saberei, apoderou-se de mim um orgulho horroroso da minha qualidade de pecador perdido, da minha sorte de condenado. Desvairado, levantei os olhos ferozes, encarei a morte de frente. “Vem! – urrei-lhe do mais fundo de mim. Não peço perdão a Deus, não peço perdão a nada.
... Mas, pela manhã, ao primeiro clarão da consciência, correu-me logo todo um movimento brusco que me despertou completamente. E deslumbrado de surpresa reparei, ó Deus, que estava ainda vivo. Estava ali bem vivo, mexia as pernas, os braços, e via com estes meus olhos a camarata adormecida, as sombras dos corredores”.
   A consciência de António persegue-o: a sua culpa, as suas confissões apavoradas de urgência e ouve o padre Silveira nas explicações da técnica de resistência à investida das paixões.
  Por fim, já com dois anos de seminário garantidos com exames António volta à aldeia e sente-se importante. A sua benfeitora D. Estefânia trata-o correctamente e a sua gente olha-o com humildade. O Dr. Alberto brinca com ele e pergunta-lhe:
...”Dizem para aí que te atiras às moças. Qualquer dia acusam-te ao Bispo.
- “Eu mato-o! Eu mato-o!” Lívido eu sentia-me destruído finamente, como se uma chama verde me queimasse o osso das gengivas...e frio de medo respondia:
- O Sr. Dr. deixe-me!”
   António quer desistir do seminário, a mãe resiste, e ele teima. Há o cansaço dos retiros, das rezas e António sente que, para dominar o futuro, tem de percorrer uma longa distância.
-“Hei-de fugir, hei-de vencer. Que ninguém tenha pena de mim.”
   Por fim sai do seminário com uma vida inteira para conquistar. Passa a viver em Lisboa e trabalha em tudo o que lhe aparece. Passa a olhar a mulher que passa por si sem medo, olha-a e encontra a revelação de uma esperança que perdera...
...”até que um dia bruscamente, estremeci de surpresa e revelação: eu sabia enfim quem ela era. Mas como falar-lhe? Como aceitar desde já a dor de uma desilusão?...
   Por isso eu me calo até à minha angústia, recolhido no receio do meu sonho...
   Por isso, nesta hora nua em que escrevo, perdido no rumor distante da cidade, conforta-me pensar não sei em que apelo invencível de vida e de harmonia que não morreu desde as raízes da noite que me cobriu.”
 
 
Nota:
    Penso que um padre tem que se sentir vocacionado plenamente para o sacerdócio. Tem que servir Deus acreditando. Na sua verdadeira fé não se sente prisioneiro porque se entrega em liberdade e com alegria.
    A vocação de padre é um mistério e como diz Saint-Éxupèry: “Quando o mistério é muito grande, não se ousa desobedecer”.
   O padre é essencialmente um homem do Povo porque antes de “inventar” o padre, Deus “inventou” um Povo, o seu Povo.
   Sendo assim, um verdadeiro padre tem de ter simplicidade no seu coração e partilhar com o Povo as alegrias, as esperanças, as tristezas e as angústias do homem de hoje. Tem essencialmente que compreender a juventude e ser um homem actual e humano perante os problemas que assolam o mundo.
    Confio que tudo se vá transformando no bom sentido e que os Novos Padres surjam para bem cumprir os desígnios de Deus.
Se assim for, o padre moderno cuidará do corpo e da alma do Povo do Senhor.
    Nos últimos tempos, o sacerdócio tem sido alvo de muitas discussões e,  querendo ultrapassar tudo o que vi durante a minha vida, desejo que a verdade, a vocação, a inteligência dos novos padres sejam incondicionalmente direcionadas para elevar aqueles que acreditam. Que esse mesmo Povo, nos anos vindouros, encontre a sua fé, o seu pão e a instrução a que têm direito.
 
Aida Nuno

 


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publicado por criar e ousar às 16:55
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