Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA
Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
VIRGINIA WOOLF (1882-1941)
 
Adeline Virginia Stephen (Virginia Woolf) , nasceu em Londres no dia 25 de Janeiro de 1882. A sua família pertencia à classe média alta. Seu pai Sir Leslie Stephen era crítico literário. Sua mãe Júlia era viúva e foi a segunda esposa de Sir Leslie Stephen.  
Como a maioria das mulheres dessa época foi educada, com sua irmã Vanessa, em casa com tutores e nunca foi à escola. Lamentou-se toda a vida por isso dado que seus irmãos tiveram oportunidade de estudar em colégios e fizeram carreira.
No entanto, ter sido educada em casa permitiu-lhe o acesso à vasta biblioteca de seu pai, livros que devorou ao longo da vida.
Foi a partir do falecimento de sua mãe, tinha Virgínia 13 anos, que começou a sofrer de periódica enfermidade mental que a acompanhou toda a vida em estados alternativos de depressão e euforia.
 
Sua meia-irmã, mais velha, Stella foi para ela uma segunda mãe mas morre em 1905 e, posteriormente, seu pai. Nesse período Virgínia tenta suicidar-se.
Foi então que nessa altura Vanessa, Virgínia e Adrian Stephen se mudaram para Bloomsbury convertendo esse espaço para reuniões de livres-pensadores. Faziam parte dessas reuniões, entre outros: Clive Bell, Lytton Strachey e Leonard Woolf. Cerca de 1910 juntaram-se a eles Roger Fry, crítico de arte, e o novelista E.M.Foster que ficaram grandes amigos de Virgínia.
 
Em 1904 Virginia começou a escrever regularmente artigos e críticas para “The Guardian”e “The Times Literary Supplement”.  Em finais de 1905 foi convidada a dar aulas em Morley College (instituto para mulheres e homens da classe trabalhadora).
 
Em 1906 e seu irmão Thoby morre e nesse mesmo ano sua irmã Vanessa (pintora) casa com o crítico de arte e seu amigo Clive Bell).
 
Em 1912 Virgínia casa-se com Leonard Woolf  e quatro anos mais tarde fundam a editora “The Hogarth Press”, que serviu de trampolim para a escritora no mundo das letras.
Ao princípio Virgínia duvida da sua capacidade como escritora sobretudo porque desde pequena lhe ensinaram que o destino das mulheres era o matrimónio e a maternidade.
 
A escritora e o seu grupo de amigos de “Bloomsbury” trocam a noção da narrativa linear por um método de escrita utilizando o “flash-back” para manter a intriga e a estrutura da narração a partir de uma linha de tempo onde o passado se recorda voltando-se posteriormente ao presente.
Nas suas primeiras novelas: Fim de Viagem (1917); Noite e Dia (1919); O Quarto de Jacob (1922) mostra claramente a determinação de ampliar as perspectivas da novela para além da narração.
 
Na novela “A Senhora Dalloway” (1925) o argumento surge da vida interior dos personagens e os efeitos psicológicos alcançam-se através de imagens, símbolos e metáforas. Há um fluxo e um refluxo das suas impressões pessoais, sentimentos e pensamentos. Os acontecimentos da Senhora Dalloway percorrem 12 horas do interior dos personagens, a consciência que têm de si mesmos, dos outros e de seu mundo caleidoscópio; a novela Orlando (1928) é mais ou menos baseada na vida de sua amiga Vita Sackville-West.
Escreveu biografias e ensaios tão famosos como Uma Habitação Própria (1929) onde critica a pouca valorização dos direitos da mulher. A sua correspondência e diários publicados postumamente são tão valiosos para os escritores como para os leitores da sua obra.
 
Outras obras da autora: Os Anos; Cartas a Mulheres; Momentos de Vida; Diário de uma Escritora, entre outros.
 
Defensora do feminismo incute às mulheres a luta contra a violência quotidiana e contra a política de valores, participando na profunda mudança cultural, numa nova era.
 
As notícias da Segunda Guerra Mundial despoletaram a natural depressão de Virgínia Woolf.
Em 28 de Março de 1941, depois da sua última crise e de ter escrito duas mensagens: uma para o seu marido Leonard e outra para Vanessa, sua irmã, enche os bolsos do seu casaco de pedras e afunda-se no rio Ouse onde morre afogada e é arrastada pela corrente sendo encontrada dois dias depois.
 
Admirando profundamente esta escritora pela sua sensibilidade, pela poesia da sua escrita não quis deixar de falar um pouco sobre a sua obra. Seria para mim uma ousadia tentar transmitir, em poucas palavras, o enredo de qualquer das suas novelas. Lembrei-me então de transcrever um conto “Três Quadros” escrito pela autora onde poderão sentir na íntegra o poder da sua narrativa, como nos domina, como nos absorve...
Aida Nuno
 
  
TRÊS QUADROS
 
Primeiro
 
É impossível não deparar com quadros por toda a parte, porque o simples facto de meu pai haver sido ferreiro, por exemplo, e o vosso par do reino, faz com que, uns para com os outros, tomemos o aspecto de personagens de quadro, coisa que possivelmente não conseguiremos evitar saindo da moldura que as circunstâncias nos criaram e isto por mais naturalmente que procuremos expressar-nos. Ao lembrarem-se de mim, por força me imaginarão à porta da forja, com uma ferradura na mão, e comentarão de passagem: “Que coisa pitoresca!” Eu, pela minha parte, não posso impedir-me de fantasiar-vos comodamente reclinada num luxuoso carro, cumprimentando a populaça, e tal visão, a meus olhos, será como o símbolo da aristocracia. Sem dúvida, nem uma, nem outra destas duas imagens corresponderá à realidade, mas, quanto a isso, que fazer?
 
Ora acontece que, há pedaço, numa curva da estrada, avistei um destes quadros que poderia intitular-se “O Regresso do Marinheiro”, ou coisa semelhante. Tratava-se de um marinheiro novo, bem-parecido transportando um saco na mão, e de uma rapariga pendurando-se-lhe no braço; em volta deles, alguns vizinhos e, ao fundo, uma pequena habitação dentro de um jardim florido. Ao passar via-se claramente que aquele marinheiro acabava de chegar da China e que, no interior da casa, a sala fora cuidadosamente preparada para recebê-lo. Adivinhava-se também que, no saco que ele transportava, vinha um presente para a jovem esposa e que esta ia dar-lhe o primeiro menino. Tudo estava certo, tudo parecia perfeito, nesse quadro e contemplar tamanha felicidade tornava a vida mais suave e agradável de viver.
 
Pensando assim, ultrapassei-os, contemplando o quadro, de memória, o mais que pude, com pormenores que conseguira observar, a cor do vestido dela, a expressão dos olhos dele, o gato amarelo enroscado à porta da habitação.
 
Durante certo tempo o quadro ficou-me nos olhos, tornando tudo em volta mais brilhante, mais quente e mais simples do que é habitual, e fazendo com que certas coisas se me apresentassem como loucuras, outras tolices e outras ainda exactas, perfeitas e com muitíssimo mais sentido do que sempre imaginara. Durante aquele dia e o dia seguinte, nos momentos mais singulares, o quadro voltou-me à memória, pensando com inveja, mas também com ternura, no marinheiro e na sua mulher; perguntava comigo o que estariam fazendo e dizendo, naquele instante. A minha imaginação, aos poucos, foi juntando ao primeiro outros quadros que, por assim dizer, o completavam. Via o marinheiro rachando lenha, via-o tirando água do poço do jardim; ouvia-o conversar com a mulher acerca do que vira na China, imaginava esta colocando cuidadosamente o presente que o marido lhe trouxera sobre a chaminé da sala, de modo que todos pudessem admirá-lo; depois imaginava a rapariga cosendo roupinhas de criança, enquanto todas as portas e janelas se encontravam abertas sobre o jardim, onde pássaros chilreavam e abelhas zumbiam. Rogers – era o nome dele – não encontrava palavras com que dissesse o prazer que tudo isso lhe causava, depois de ter percorrido os mares da China, e instalava-se a fumar cachimbo, fora da porta, admirando o jardim.
 
Segundo
 
No meio da noite um grito dilacerante rasgou o silêncio; em seguida, ouviu-se como que um vozear, depois um silêncio de morte se fez. Tudo quanto pude avistar, da minha janela, foi uma haste do lilás do jardim pendendo imóvel sobre a estrada. Era ainda noite fechada. Não havia luar. O grito emprestara às coisas um aspecto singular. Quem gritara? Porque gritaria ela? Tratava-se de uma voz de mulher, quase inexpressiva, quase assexuada, pela violência da emoção. Dir-se-ia a natureza humana gritando contra qualquer inexplicável iniquidade, contra qualquer inenarrável horror. 
Seguiu-se ao grito um silêncio de morte. As estrelas cintilavam perfeitas, serenas, os campos dormiam tranquilos e as árvores continuavam imóveis; no entanto, por toda a parte se espalhara um sentimento de culpa, todas as coisas se sentiam responsáveis não sei por que tremendo crime. Tinha-se a sensação de que era indispensável tentar qualquer coisa. Tinha, por força, de aparecer alguma luz agitando-se, movendo-se inquieta, numa e noutra direcção. Alguém devia aparecer correndo pela estrada.
As janelas da casita na curva do caminho iluminar-se-iam e então talvez que outro grito se fizesse ouvir menos desesperado, no entanto, já não inarticulado e repleto de inenarrável horror. Todavia, nenhuma luz apareceu, nenhuns passos se fizeram ouvir e não houve segundo grito. O primeiro extinguira-se, desapareceram dele os derradeiros ecos e seguiu-se-lhe um silêncio mortal.
Deitada no silêncio do quarto, eu escutava debalde. Fora uma voz apenas. Uma voz sem sentido. Não era possível imaginar qualquer quadro que com esse grito tivesse relação e que pudesse ajudar a interpretá-lo ou a torná-lo inteligível. A manhã começava a romper quando avistei uma forma humana, meio diluída em treva, indefinida, informe, erguendo em vão um braço gigantesco contra qualquer intransponível iniquidade.
 
 
Terceiro
 
O tempo continuou suave. Se não tivesse ouvido aquele grito durante a noite teria a impressão de que, finalmente, o orbe aportara a porto seguro, que a vida deixara de ser agitada pelo vendaval, que o mundo alcançara, enfim, uma enseada tranquila onde repousasse quase imóvel em águas tranquilas. Contudo, nos meus ouvidos, o som persistia. Onde quer que me dirigisse, mesmo ao dar um passeio pelas colinas, qualquer coisa me parecia existir sob a superfície serena das coisas, fazendo-me descrer da estabilidade, da segurança, que à minha volta pareciam existir. Pela vertente um rebanho pastava tranquilo e o vale, ao fundo, estendia-se, ondulado, como um mar calmo de Verão.
Passei por uma herdade solitária. No pátio um cachorro brincava e borboletas voltejavam sobre a urze. Tudo parecia gozar uma felicidade serena e perene. Contudo, na noite anterior, ouvira-se aquele grito e toda a beleza, toda a serenidade, que eu tinha em frente dos olhos, fora cúmplice. Sim, pelo menos consentira, e tudo continuava sereno, belo, embora aquele grito se tivesse feito ouvir e pudesse voltar a se repetir. Toda a serenidade, toda a segurança eram aparência falaz...
E então para me alegrar, para esquecer esta opressiva disposição, recordei a chegada do marinheiro. Voltei a ver o quadro, enriquecendo-o ainda com mais alguns pormenores – o vestido azul que ela trazia, a sombra que a árvore florida projectava sobre o jardim – que não notara até ali. Tornei a avistá-los junto da porta de casa, ele com o seu saco, ela enfiando-lhe o braço, o gato amarelo enroscado à porta. E, desta maneira, rememorando o quadro em todos os seus pormenores pude, aos poucos, convencer-me de que realmente existiam calma e bem-estar para além da superfície das coisas e não nos esperava sempre qualquer surpresa traiçoeira e sinistra. O rebanho pastando, espalhado sobre o ondulado das colinas, a herdade longínqua mais o seu cachorro e as borboletas poisando aqui e além, eram realmente factos e nada havia oculto sob tais aparências. E assim regressei a casa, pensando no marinheiro e na mulher, desenhando, um após outro, vários quadros de felicidade perene e de alegria, de modo a calar o desassossego que o tremendo grito deixara dentro de mim.
Alcancei finalmente a aldeia, atravessando o adro, por onde é forçoso atravessar; e, como sempre me acontece de cada vez que passo naquele local de paz, atentei na tranquilidade daquelas cinzas repousando dentro de túmulos de pedra ou em covas onde não existe sequer um nome a recordar. Quando por aqui passo, tenho sempre a impressão de que a morte é uma coisa alegre, pensei uma vez mais. Eis então que um quadro mais se me apresentou.
Um homem abrindo uma cova e um bando de crianças merendando ao lado da sepultura. Enquanto ele ia retirando de dentro da cova pás de terra, as crianças comiam o seu pão com doce e bebiam leite de enormes púcaros. A mulher do coveiro, gorda e bonita, encostada a um túmulo, estendera o avental na relva, mesmo ao lado da cova que acabara de ser aberta, de modo a fazer de toalha de chá. “Quem vai ser enterrado”, perguntei, “morreu finalmente o velho Mr. Dodson?” – “Não, não”, respondeu-me a mulher. “É para o Rogers, o marinheiro. Morreu a noite passada de uma febre que apanhou na viagem. Não ouviu a mulher? Veio a estrada e gritou...”
Depois, virando-se para um dos pequenos, “Tem juízo Tommy, estás a encher-te de terra”!
Que quadro tremendo que me não atrevo sequer a esboçar...
Virgínia Woolf
 
 
Nota Pessoal
Caminhou ao encontro das águas ausente de tudo e não mais voltou...
Como a própria autora citou “A Vida é um sonho e é o sonho que nos mata...”
Ficou para sempre a sua obra magnífica.
“Sim, o mundo pode ainda vir a ser muito belo... Um mundo vasto, tranquilo, com campos cobertos de flores vermelhas e azuis. Um mundo onde o pensamento deslizará como um peixe num regato recoberto de nenúfares e de lírios com ninhos pelas ramagens, repletos de ovos brancos de aves aquáticas” (escreve a autora em “Marca na Parede”).

sinto-me:

publicado por criar e ousar às 20:30
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