Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA
Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008
COBARDIA

           Lembro o meu pai gordo, sanguíneo, com os olhos turvos e um pouco cerrados sempre pronto a investir sobre mim a qualquer gesto, a qualquer palavra que não fosse para ele transparente, que não traduzisse obediência e submissão. Movia-se com grande esforço, como se estivesse sempre em luta com o estorvo da sua gordura mas, isso, não o impedia de me castigar corporalmente como se assim aliviasse a sua ira perante as suas limitações.

          O medo constante que eu e a minha mãe sentíamos pelo meu pai, a impotência perante as suas decisões irrevogáveis queimavam todo o nosso querer, toda a nossa esperança e alegria, reduzia-nos a cinzas.
          Com a minha juventude e inexperiência não via nenhuma saída que me pudesse libertar daquele gigante, com poder absoluto, dominando como um senhor feudal. Muitas vezes quis ver nele a razão, a sabedoria, mas ter medo de um pai, sentir ansiedade quando lhe escutava os passos, não era natural.
         Sempre conheci a minha mãe frágil e acomodada perante um mundo que nunca conheceu e que a todo o momento se estava transformando. O seu mundo era o meu pai e as migalhas que ele lhe oferecia em troco da sua servidão.
          Por vezes, havia uma certa generosidade nas suas atitudes mas, essas dádivas, eram oferecidas por um Deus cruel que exigia vassalagem e admiração.
          Eu era a insubmissa silenciosa, não conformada. De olhos bem abertos olhava o mundo que girava, não à minha volta mas sim nas ruas, nos acontecimentos, nos sentimentos que floriam, nas vozes que escutava, no trabalho exigente, nos livros bem e mal escolhidos, na provocação da vida perante a minha juventude, a minha inteligência e o meu inconformismo.
          Censurar o meu pai por tudo o que se passou? Não, não posso. Invade-me uma imensa pena por aquilo que ele não foi ou não conseguiu ser. Como as suas capacidades poderiam ter sido usadas de uma maneira diferente! Eu nunca duvidei que toda essa carne pesada, onde ele habitava, tinha uma alma boa mas adormecida, não sei bem ao certo porquê!
          Teria aprendido com o mar a sua fúria e a sua crueldade? Quanto tempo viveu e percorreu esse mar embravecido? Muitos e muitos mil dias...não sei a conta... Pobre marinheiro longe de um amor verdadeiro... Os desejos eram contidos e os sussurros que ouvia vinham do mar, das sereias que nele habitam para endoidecer os homens. Como eles se excitam quando  vislumbram lá longe uma nesga de terra! Essa terra que os sacia e onde procuram o remédio para a sua solidão.
          Talvez quisesse destruir, com a sua severidade ignorante, as prostitutas que pelos seus braços passaram de porto em porto por esse mundo fora. Nós éramos a sua moral, a sua família, tínhamos de viver sobre o seu jugo, purificadas.
           É difícil saber o que o meu pai pensava. Hoje quero ficar convicta que ele foi o fruto de uma geração decadente mas não extinta... Faltou-lhe um pai que não conheceu, faltou-lhe uma mãe que lhe ensinasse o amor, o abraço, o sorriso partilhado, o tal amor primeiro que dá o princípio de tudo ao homem, a sua ternura perante o mistério da maternidade. Faltou-lhe a mulher rebelde que o enfrentasse e lhe dissesse: Não, eu sou gente! Os seus sentimentos, os maus e os bons, foram misturados, indistintos... falhando irremediavelmente.
           Imensa é a saudade, de ser criança ingénua, de olhar o meu amor paterno chegando dessas terras e desses mares por mim desconhecidos mas imaginados pelas palavras desse marinheiro, de olhos da cor do mar, que me interrogo. Porquê? Porque mudaste, porque me desiludiste? Porquê crescer? Onde estava o meu herói? Quem era este desconhecido que me tirava o direito de viver a minha mocidade?
           E os dias sempre a passarem iguais, penosos, salvo o trabalho e as pessoas que à volta dele giravam e me ofereciam o oxigénio para continuar, para não desistir...
           Tanto pôr-do-sol que eu perdi, tantos barcos que não vi passar num mar que habitava ali mesmo ao meu lado... Imaginava tudo o que eu queria num sonhar constante, dentro da noite onde tudo se apazigua, se silencia e nos aquieta.
           A mãe e os seus desgostos, a mãe e todas as suas aflições. Eram os excessos, a bebida...o corte no dinheiro, não vás, não faças...olha o teu pai.
           Sentia vontade de fugir para um lugar onde pudesse realizar os meus sonhos. Cansei-me do meu pai, da minha mãe e de morrer um pouco todos os dias. Eu queria viver, não sentir medo, sentir com alegria as pequenas coisas vulgares e que nos fazem rir, descobrir em mim a mulher sem o insulto nem o castigo. Quem sendo jovem quer sentir a maldade humana tão perto de si? Eu estava no tempo de acreditar no amor, na felicidade, nos amigos.
           As noites desciam sempre cedo sobre mim. Assim acelerava o tempo num sono de sonhos porque os dias eram iguais, nunca me pertenciam. A palavra “proibir” estava colada ao meu cérebro. Odiava este verbo nas suas mais diversas variantes.
         Um dia a minha mãe, com o seu ar sempre muito humilde, compreendendo a minha tristeza constante, disse-me:
           - Ouve, querida filha... Não és tu que te deves afligir, não és tu que deves sofrer. Eu devia calar-me, não te contar nada... Eu prometo-te...um dia tudo vai mudar. Eu vou enfrentá-lo...espera e verás!
           Durante muito tempo nada mudou... a sua boca permanecia cerrada, os seus olhos continuavam baixos e pisados e as suas rugas pareciam sulcos profundos em terra seca.
           Fui aprendendo, vendo, escutando até que houve um clique dentro de mim e tomei uma resolução perante uma vida sem projectos e sem sentido: sair de casa contra tudo e contra todos. Pensassem o que quisessem, dizia para mim mesmo, determinada e ao mesmo tempo cheia de ansiedade. não vou desistir, a minha decisão está tomada, não sai da minha mente, não voltarei atrás.
          Cerrei a porta da casa de meus pais devagar, querendo fechar também mansamente todo o meu passado. Não sabia o futuro mas sabia quem eu era, sabia o que queria e à medida que avançava para a liberdade vislumbrei, sem querer, a cena que iria dar-se quando dessem pela minha falta: o choro de minha mãe angustiada e a crueldade de meu pai enfurecido.
          Dentro de mim começou novamente a crescer um invencível medo que, por fim, se sobrepôs a todos os outros sentimentos e a qualquer outra ideia. A minha liberdade retrocedia agora tão violenta que me secou a boca. A minha mãe ficava sozinha... Acobardei-me.
          Voltei, voltei pela minha mãe, para a ajudar como pudesse e com a resignação de uma mulher que a fatalidade obrigasse a passar por uma provação para alcançar, mais tarde, a libertação, que o meu sexto sentido já tinha a previsão e a certeza. Descobri, nesse momento, que tinha de ficar. Ainda era cedo para me libertar e não o podia fazer daquela maneira. Estava, dolorosamente, aprendendo a vida. Um dia tudo se transformaria.
           Ao regressar pelo mesmo caminho, senti na aragem da noite a magia de estar viva. Voltava convicta para desafiar o homem, o pai, esse gigante de quem não teria mais medo. O orgulho e a lucidez entraram em mim e senti-me a crescer como David perante Golias.
            Estava chegando a casa e ao atravessar a rua reparei num vulto que me pareceu familiar. Estaquei e o meu coração deu um salto pois reconheci a minha mãe. Mais atrás vinha o meu pai, lutando contra a sua gordura, correndo atabalhoadamente e gritando:
         - Leonor! Leonor!
          A minha mãe não o ouvia. Caminhava direita, muito hirta, sem se voltar, sem se desviar, como se só tivesse uma finalidade, um objectivo: chegar a um certo lugar por ela definido. O que pensaria minha mãe? O que se teria passado?
          Balouçando-se, transportando consigo todo o seu peso, o meu pai não a conseguia alcançar. Tudo parecia impossível, irreal: a minha mãe caminhando sem saber exactamente o seu caminho... ou saberia? O meu pai chorava, implorando, chamando-a desesperado... e eu, há momentos, no limiar da minha liberdade, observava e continuava aprendendo a vida...         Três personagens mudando as suas posições... A noite permanecia quieta e negra, como um cenário onde se tivessem esquecido de desenhar a lua e eu só ouvia:
          - Leonor! Leonor! Ouve! Volta para casa! Eu perdoo-te...
          Consegui mover-me, chegar perto do meu pai.
          - O que foi pai, o que sucedeu? – Perguntei-lhe.
          Apontou-a com o dedo e disse:
          - Está doida, a tua mãe está doida, não a conheço... e prosseguiu a sua caminhada cambaleante, soluçando ou urrando cada vez mais alto, seguindo-a sempre como se estivesse alucinado.
          Eu fiquei quieta vendo os dois afastarem-se e pensei que todas as cóleras, todos os ódios, violências e castigos são injustos e inúteis. Achei-me uma estranha perante o sucedido, no entanto, na minha consciência, martelava-me o remorso de ter ajudado a acontecer algo de irreparável e que eu lembraria para sempre. O que se teria passado entre o tempo da minha liberdade e o da minha cobardia? O que teria dito minha mãe para o meu pai ter a veleidade de lhe querer perdoar? Teve a minha mãe que enlouquecer e morrer, ainda tão nova, por ter tido uma única vez, na sua vida, coragem? Nunca o soube.
          A mãe adoeceu por um período prolongado onde por fim a morte a esperava; o meu pai mudou, sempre calado e acessível no trato até ao fim da sua vida. Eu morri, nasci e renasci a partir daquela noite, a noite das decisões... Foi um caminho bastante doloroso, o preço foi muito alto mas, hoje, serenamente, a minha memória transporta-me, muitas vezes, para o meu passado e imagino a heroína, a minha mãe, surgir lutando, por breves momentos, contra o despotismo do meu pai, como uma guerreira.
          Os anos passam por nós e dão-nos outra visão da vida. Os acontecimentos passados tornam-se sempre nublados como se fossem perdendo a força e o seu significado. O que sucederia se, naquela noite, eu tivesse apanhado um comboio qualquer e tivesse partido?
           Quero pensar que a minha mãe se curaria e o meu pai também... ficando os dois à espera do meu regresso cheios de esperança. Eu, num dia qualquer, abriria decidida a porta da nossa casa na certeza de que nada seria como dantes.
 
 
                         Aida Nuno
   

sinto-me:

publicado por criar e ousar às 13:05
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2 comentários:
De Genny a 8 de Janeiro de 2008 às 13:54
Só consigo deixar um abraço, depois de ler a sua história.


De criar e ousar a 13 de Janeiro de 2008 às 21:10
Olá amiga!

Ainda bem que gostou. Não é a minha história mas sim um conto.

Um Bom Ano.

Aida


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