Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA
Quarta-feira, 24 de Outubro de 2007
ANDRÉ MALRAUX – (1903 -1976)
Para a maioria dos escritores a infância é objecto de recordações nostálgicas e maravilhosas.  André Malraux  empregou toda a sua energia para a esquecer : "Presque tous les écrivains que je connais aiment leur enfance, je déteste la mienne" escreve nas suas anti memórias em 1967.
Nasceu em 1903 em Montmartre – Paris. Depois da separação de seus pais Malraux foi criado por três mulheres: sua avó, sua mãe e sua tia. Começou nessa altura a descobrir o mundo através de livros e de museus. Dotado de uma grande curiosidade e de uma memória prodigiosa muito novo começou a frequentar meios literários e artísticos avant-garde. Malraux torna-se num apaixonado pela pintura cubista.
Em 1921 é editado o seu primeiro livro “Luas de Papel”.
Mais tarde conhece Clara Goldschmidt, rica herdeira de uma família alemã emigrada. Clara é imediatamente seduzida por este homem elegante e de uma inteligência brilhante. Depois de casados Malraux joga a fortuna de sua mulher na bolsa e perde. O casal fica arruinado.
Para reconstruir rapidamente o património André Malraux toma a estranha decisão de ir buscar algumas estátuas khmères à selva do Cambodja para as vender no Ocidente. A expedição é um desastre. No Natal de 1923 chegam a Phnom-Penh. André Malraux é condenado a três anos de prisão. Sua mulher e cerca de vinte grandes escritores franceses mobilizam-se e conseguem a sua libertação.
Esta experiência incute-lhe o vírus da aventura e o seu interesse pela acção política. Malraux retorna à Ásia. Torna-se num anti-colonialista o que lhe traz vários problemas com a justiça. Como redactor e chefe de uma publicação clandestina “L’Indochine Enchainée” foca os acontecimentos da revolução chinesa, principalmente de Cantão em 1925.
Regressa a França onde publica os seus primeiros romances: A Tentação do Ocidente (1926); A Estrada Real (1930- Prémio Interallié);  A Condição Humana (Prémio Concourt-1933).
Convicto antifascista participa na Guerra Civil de Espanha ao lado dos republicanos em 1936. Este acontecimento inspira-o para um grande romance “A Esperança” (1937) e um filme “Serra de Terruel” (1939).
Durante a segunda guerra mundial entra tardiamente na resistência (1943) sob o nome de Coronel Berger. Passa por grandes dificuldades junto dos gaulistas e comunistas. Em 1944 cai numa emboscada em Toulouse. Ferido Malraux é preso, interrogado e transferido para a prisão de Saint-Michel de Toulouse. Deve a sua libertação, em Agosto, quando da retirada precipitada dos alemães.
Separa-se de Clara Goldschmidt em 1938 e passa a viver exclusivamente com Josette Clotes com quem se tinha relacionado desde 1933 e de quem tem dois filhos. Em 1944 Josette morre acidentalmente.
Posteriormente casa com Madeleine viúva de seu meio-irmão Roland preso e executado em 1944, como resistente.
Em 1945 ele reencontra o General De Gaulle.   Uma grande admiração recíproca é criada entre os dois. Malraux aceita o convite para seu conselheiro técnico da Cultura e será por um curto espaço de tempo Ministro da Informação (Novembro 1945 – Janeiro 1946).
Nunca mais deixará o General De Gaulle. Em 1958 é nomeado Ministro do Estado encarregado de Assuntos Culturais. O militante revolucionário torna-se em militante Gaulista.
Posteriormente Malraux publicou várias obras entre elas  A Voz do Silêncio em 1951.
Em 1961 perde os seus dois filhos. “A morte é a prova irrefutável do absurdo da vida” cita Malraux.
A Metamorfose dos Deuses (1957-1976), e Anti memórias (1967) são obras notáveis deste homem de grande intelecto.
Em 1970, publica “Chênes que l'on Abat”, a última homenagem ao General De Gaulle.
Morre em 1976 no Hospital Henri-Mondor de Créteil com uma congestão pulmonar.
Jean d'Ormesson escreve sobre Malraux: ...”É dentro do coração e na memória que sobrevivem os escritores. - Malraux amou a Arte, a Revolução e o General De Gaulle.”
 
Estrada Real é o relato quase iniciático da revelação do destino do homem, obtida através da sua luta contra a natureza e os outros homens. André Malraux finaliza esta narrativa com a terrível descoberta de que a morte é uma experiência individual e infinitamente solitária.
A ESTRADA REAL de André Malraux (excertos)
Este maravilhoso livro é iniciado por uma troca de palavras entre Perken e Claude a respeito de alguns aspectos mais sombrios do erotismo:
“...Os homens mais novos não entendem o...como é que vocês dizem?...o erotismo.
Até aos quarenta, caímos sempre no mesmo erro, não sabemos libertar-nos do amor; um homem que, em vez de pensar numa mulher como complemento de um sexo, pensa no sexo como complemento de uma mulher, está pronto para o amor: tanto pior para ele. Mas há pior; a época em que a obsessão do sexo, a obsessão da adolescência, regressa, mais forte ainda alimentando-se de toda a espécie de recordações...”
Claude, ao sentir o cheiro do pó, a cânhamo e a cotão entranhado na sua roupa, tornou a ver a cortina de sacas ligeiramente repuxada atrás da qual um braço estendido lhe tinha mostrado, havia pouco, uma adolescente negra, nua (depilada), com uma ofuscante mancha de sol no seio direito espetado; e a prega das pálpebras grossas que tão bem exprimia o erotismo, o desejo maníaco, “o desejo de trazer os nervos à flor da pele”, dizia Perken... E este continuava:
- Vão-se transformando as recordações...A imaginação é uma coisa extraordinária! Em si mesma,  estranha a si mesma...A imaginação...compensa sempre...
“...- O que quer dizer com isso, ao certo?
- Você há-de compreender por si, mais tarde ou mais cedo...os bordéis somalis estão cheios de surpresas...
Claude conhecia bem aquela ironia rancorosa que um homem raramente emprega a não ser contra si ou contra o seu destino.”
Claude é um jovem de 26 anos que decide aventurar-se à busca, nas florestas da Indochina, de templos perdidos que se dispersavam ao longo da Antiga Estrada Real Khmer, que liga Angkor e os lagos à bacia de Menão.
Perken é uma espécie de alto funcionário siamês que vai explorar os mesmos caminhos em busca de Grabot, um presumível desertor. Tendo um passado estranho sente-se prisioneiro da sua própria vida.
É nesta expedição que entre eles se gera uma amizade e profunda fraternidade nascida do próprio sentido de aventura e da consciência do perigo.
“...Nunca se faz nada da vida, diz Perken.
- Mas ela faz alguma coisa por nós, responde Claude.
- Nem sempre... O que espera você da sua?
Claude não respondeu logo. O passado daquele homem transformara-se em experiência, em pensamento apenas sugerido, em olhar, que a sua biografia perdia toda a importância. Só restava entre eles – para os ligar – aquilo que os entes têm de mais profundo.
- Penso que sei sobretudo o que não espero dela...
- De cada vez que você teve de optar, não se...
- Não sou eu que opto: é aquilo que resiste.
- Mas o quê?
Tantas vezes fizera a si próprio essa pergunta que pôde responder imediatamente:
- A consciência da morte.
- A verdadeira morte é a decadência.
Perken olhava agora no espelho o seu próprio rosto.
- É tão mais grave, envelhecer! – Aceitarmos o nosso destino, a nossa função, a casota de cão erguida na nossa vida única... Não se sabe o que é a morte quando se é novo...
E de repente, Claude descobriu o que o ligava àquele homem que o aceitara sem que ele percebesse bem porquê: “a obsessão da morte.”
Percorremos com o escritor as florestas da Indochina, sentimos a esperança, a inquietação e o cansaço dos personagens. A vontade de vencerem, o instinto de viver para além das dificuldades, o espírito de gratidão ao descobrir a primeira figura esculpida...A consciência, a procura, o desalento passam pelos nossos olhos de uma maneira tão absoluta que não distinguimos o bem do mal. Só sentimos o homem e a sua condição humana.
“A unidade da floresta, agora, impunha-se; havia seis dias que Claude renunciara a separar os seres das formas, a vida que se move da vida que ressuma; uma potência desconhecida ligava os fungos às árvores, fazia formigar todas estas coisas provisórias sobre um solo semelhante à espuma dos pântanos, nestas florestas fumegantes do começo do Mundo. Que acto humano tinha aqui sentido? Que vontade conservava a sua força? Tudo se ramificava, amolecia, procurava adaptar-se a este mundo ao mesmo tempo ignóbil e cativante, como o olhar dos idiotas, e que minava os nervos com a mesma força abjecta que essas aranhas suspensas entre os ramos, de que Claude a princípio tanta dificuldade tivera em desviar os olhos.”
A luta em desbravar, levar o que lhes não pertence, a passagem pelas aldeias em troca de missangas, de álcool, e do medo que, por vezes inspiram, toca-nos e transportam-nos para um mundo desconhecido.
 “...A noite, agora fechada, mergulhava até às mais longínquas terras da Ásia, restabelecida, a par do silêncio, sobre os ermos. Acima do fraco ruído das fogueiras, elevavam-se as vozes de dois indígenas, claras e monótonas, mas sem alcance, prisioneiras: mesmo ao lado deles, um robusto despertador media com precisão o silêncio sem fim da selva.
Mais do que as fogueiras, mais do que as vozes, era esse tiquetaque que ligava Claude à vida dos homens, pela sua constância, pela sua clareza, pelo que há de invencível em todo o objecto mecânico. O seu pensamento vinha à superfície, mas alimentado de abismos de onde brotava, dominado ainda pela força do sobrenatural que se elevava da noite e da terra queimada, como se tudo, até mesmo a terra, se tivesse encarregado de o convencer da miséria humana.
- E a outra morte, aquela que está em nós?
-Existir contra tudo isto (Perken indicava com o olhar a maçadora majestade da noite), você compreende o que isso significa? Existir contra a morte é a mesma coisa. Ás vezes parece que represento o meu próprio papel nessa hora. E talvez tudo se resolva muito em breve, com uma flecha mais ou menos repugnante...
...Eu estive quase a morrer: você Claude não conhece a exaltação que vem do absurdo da vida, quando estamos diante dela como diante de uma mulher des... Fez o gesto de arrancar.
- Despida. Nua, de repente...
Claude já não conseguia desviar os olhos das estrelas:
- Falhamos quase todos a nossa morte...
-Eu passo a minha vida a vê-la. E aquilo que você quer dizer - porque também você tem medo - é verdade: é possível que eu seja mais fraco do que a minha. Tanto pior! Também há qualquer coisa de...satisfatório na destruição da vida...
- Você nunca pensou seriamente em matar-se? Pergunta Claude
- Não é para morrer que eu penso na minha morte, é para viver.
Aquela tensão da voz era a desta paixão e de nenhuma outra: uma alegria lancinante, sem esperança, como o destroço de um navio içado de profundezas tão longínquas como a das trevas.”
Perken recupera Grabot martirizado e doente. Há os interesses do caminho de ferro, a ocupação militar... A aventura transforma-se em pânico... Perken é ferido de morte... sente-se um condenado sem esperança. O seu pior adversário é a sua decadência.
“Já não tinha mão, já não tinha por corpo mais do que senão a sua dor; o que significava a palavra “decadência”?...
...Claude viu o sangue surgir entre os lábios de Perken, mas o sofrimento protegia o amigo contra a morte: enquanto sofresse estava vivo. De repente, a imaginação colocou-o no lugar de Perken: nunca se sentira tão preso à vida que não amava.
...Claude lembrou-se, com ódio, da frase da sua infância:
“Senhor, valei-nos na nossa agonia...” Exprimir com as mãos e os olhos, senão com palavras, essa fraternidade desesperada que o projectava para fora de si próprio! Estreitou-lhe os ombros.
Perken olhava aquela testemunha, estranho a ela, como a um ser de outro mundo.”
Nota pessoal
Génio entre os génios André Malraux é uma das mais vivas forças intelectuais do século XX. Foi um fervoroso defensor da dignidade humana.
Principalmente este livro foca a amizade profunda entre dois homens que se encontram, se ajudam e se interrogam.
A morte enterra-se em nós e faz-nos meditar sobre as culpas, sobre os direitos, sobre a alma humana e as suas fragilidades.
Somos seres derrotados perante o abismo de uma morte lúcida. É como uma espera para nascer, uma dor profunda perante a visão do que ainda não se vislumbra, como o parto natural de um ser...
 
Aida Nuno


publicado por criar e ousar às 19:50
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