Vivemos num Mundo conturbado repleto de problemas e incertezas perante o teatro da Vida. Quando os olhos se embaciam, o silêncio fala e as interrogações permanecem...é chegado o momento de meditarmos e nos abrirmos à FILANTROPIA
Domingo, 3 de Fevereiro de 2013
Os Outros e Eu

 

    Laura estava muito cansada e o autocarro nunca mais chegava. Olhou para o saco que trazia e pensou que tinha tido uma má ideia em transportar as compras num saco tão frágil.

    Fez um pequeno sinal com a mão e o autocarro parou um pouco mais à frente da paragem. Laura perguntou a si própria o porquê daquela falta de precisão do motorista. Entrou com uma certa dificuldade devido a estarem muitas pessoas em pé mas, olhando com mais atenção, verificou que na retaguarda havia um lugar vazio. Ao sentar-se pensou que mais uma vez tinha tido sorte em arranjar um assento no banco dos palermas. Sem outra alternativa pousou o saco no colo e procurou um pouco de conforto. Não o encontrou e fechou os olhos para se ausentar de tudo o que a rodeava.

    Lembrou-se dos dois filhos, das dificuldades que tinha tido ao longo do casamento e que ainda estavam presentes no seu dia a dia. Tudo crescia na sua casa. Eram os crianças, as contas, que não se podiam adiar, e tudo se enredava para lhe dar momentos de alegria e outros de aflição.

    Sentia que já não tinha a agilidade e a força de antigamente. Tinha engordado um pouco, sentia-se menos ágil, e a vontade de conseguir que tudo estivesse feito e na devida ordem eram só desejos. Estava a ficar mais desordenada, mais inquieta. Começava a perceber que as pequenas coisas a que dava tanta importância, quando era mais nova, tinham deixado de ter qualquer valor para si. Andava cansada da rotina, de tantos afazeres, das  dificuldades constantes. Hoje não era essencial que tudo fosse belo, que tudo tivesse uma aparência harmoniosa, sem falhas. Sentia-se mudada, menos cuidada, desinteressante.

    No seu íntimo Laura sempre tinha gostado de sentir segurança e, por isso, tinha casado com um homem bom, íntegro e tivera dois filhos, a sua Alice e o seu Ricardo. O passado para ela deixara de existir, ou seja, parecia muito longínquo, desde que conhecera aqueles que amava. Vivia com toda a sua alma a vida com a família. Nada era fácil para si: segurar o dinheiro todo o mês, os extras que apareciam, as roupas que faltavam.

    Por muito que trabalhassem os problemas nunca acabavam. Uma vida em comum com filhos para criar é bom, é reconfortante mas custava um bocado segurar as dificuldades que, por vezes, a sufocavam. Criara com o marido uma vida de verdade onde havia muito amor e persistência. Só que hoje sentia-se exausta. O calor de Agosto tornara-se insuportável para quem é obrigada a andar pela cidade de um lado para o outro.

    Os pais viviam longe, aliás, ela é que vivia longe dos pais e dos irmãos que, com certeza, preenchiam o vazio da sua ausência. Tinha-se acomodado a viver das recordações de infância e de matar as saudades quando a vida o permitia.

    Suspirou. A noite em breve chegaria e ela também, dentro de pouco tempo, regressaria a casa e descansaria um pouco enquanto o jantar se fizesse. Sorrio levemente à imagem dos filhos perguntando: O que é o jantar mãe? Mesmo cansada faria um pouco de arroz doce para a sobremesa. Os filhos adoravam e seria uma surpresa.

    Continuou a pensar no dia de amanhã que compreendia voltar de novo à lida de todos os dias.  Respirou profundamente e abriu os olhos. Fazia parte deste mundo que caminhava ao seu lado, cada um com os seus pensamentos onde alegrias e tristezas se confundiam. Uma cidade enorme para a sua dimensão de vida que, muitas vezes, a desorientava e lhe metia medo.

    O autocarro rolava devagar, como habitualmente, no meio do trânsito de fim de tarde. Laura olhou as nuvens que se estavam a tornar de um cinzento chumbo prenúncio de chuva e trovoada para a noite. De uma maneira abrupta o autocarro parou numa paragem, como se o motorista, contrafeito, não quisesse parar. Talvez não...seria cansaço de uma noite mal dormida por algum motivo grave ou estivesse só absorto com pensamentos banais que lhe desviavam a atenção e o interesse pelos outros que se apinhavam, como bonecos sem corda, à sua espera. Como o poderia saber?

  O destino? Tantos destinos silenciosos, sem expressões, sem gritos, sorrisos ou palavras. Não queria pensar muito porque a sua vida já era de si  complicada. Estava imenso calor. Abafava.

    Reparou na entrada dos passageiros e chamou-lhe a atenção um homem de óculos muito escuros pedindo o seu lugar por direito. Era cego. Trazia consigo uma bengala extensível.

    Sentiu-se a observá-lo emocionada, intranquila por o estar a fixar tão intensamente. Não conseguia desviar o olhar, com um misto de pena e de vergonha, como se a sua visão fosse qualquer coisa que roubara e que, por conseguinte, não tinha direito.

    O cego impassível sentou-se e, de repente, olhando sempre em frente, começou a conversar com o passageiro ao seu lado sobre futebol. Sorrindo e gargalhando questionava e, ao mesmo tempo, respondia sobre as vitórias do seu clube.

    Não conseguia desviar o olhar daquele jovem desconhecido, cego e sorridente. Os dedos crisparam-se no saco das compras e, por momentos, entrou na sua realidade. O saco estava-se a rasgar e ela ficou suspensa no receio de que tudo se espalhasse sem remédio pelo chão do autocarro. 

    Ninguém reparava nela nem no cego. Ninguém olhava ninguém, nenhum dos ocupantes sorria para além do cego conversando com o outro passageiro sobre futebol. Laura sentiu-se impotente perante aquela súbita piedade que a incomodava. Sentiu uma angústia dolorosa apanhar-lhe o coração, estrangular-lhe a garganta.

    Encostou o saco de plástico meio roto contra o peito tentando salvar a fruta e os legumes que trazia. Tentou concentrar-se na sua aflição, esquecer o cego e o cansaço que a tomava.

    Desceu do autocarro com as pernas trémulas, completamente derrotada pelo dia que tinha tido. Segurava com dificuldade o resto do saco com a ajuda da roda do vestido puxada para a frente com ambas as mãos.

    Foi com dificuldade que percorreu o caminho até chegar a casa. Parecia que o seu cansaço, o saco rasgado e o cego lhe tinham baralhado o sentido de orientação, o significado da sua vida e o direito de ver.

    O coração batia-lhe  acelerado  quando  entrou em casa. Não  resistiu  mais,  baixou-se e deixou rolar pelo chão tudo o  que  trazia. Sentou-se no soalho e riu. Um riso rouco, convulso, sem  alegria. Acabou o riso e o silêncio tomou conta de si. Assim  se  deixou   ficar  até que  a  noite  começou  a  descer  e  sentiu que as obrigações de mãe e mulher a chamavam. 

    Foi então que entre os tachos, a mesa posta, o arroz doce, nesses momentos tão reconfortantes, que sentiu um amor profundo por tudo que fazia, pelas pequenas coisas que podia olhar, pelo marido que em breve chegaria sorrindo para ela no meio da sua fome, pelo alarido dos filhos, pelos olhos com que podia olhar o mundo, ver os que muito amava. Como era bom olhar a cor dos seus cabelos, as mãos... a expressão tão inocente dos seus filhos!

    Esqueceu-se do seu cansaço e sentiu-se feliz por ter podido dificilmente, mas com sucesso, transportar a  fruta e os legumes até  a casa, porque via...

    A família chegou e acharam Laura muito exuberante. As crianças riam e o jantar sendo humilde parecia de festa. Como uma ave apreciando a Primavera Laura prendeu esses momentos profundamente na  memória como se tivesse medo que tudo que de bom tinha se escoasse entre os seus dedos.

   Nessa noite, o quarto, o marido e o amor tiveram para Laura outro significado. Fizeram-na esquecer o dia, o inferno da realidade, o mundo dos outros que, por breves horas, lhe tinham amargurado o coração.

 

Aida Nuno  


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publicado por criar e ousar às 16:28
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